quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ser professor 1 - "Um convite à (re)suscitação"

Ser professor em pleno século XXI é, indiscutivelmente, um grande desafio! Não falo isso àqueles profissionais da educação que não acreditam na força das mudanças impostas pela globalização – esses continuam a dar aulas, estáticos como se o mundo e seus componentes também o fossem.  Também não falo aos educadores que não mais acreditam na força da profissão que abraçaram, pois já "entregaram as pontas" e nada querem fazer para "reacender a chama" que um dia os motivaram a abraçar a  nobre causa docente. Falo àqueles que acreditam em uma escola viva, (re)suscitada, reinventada, capaz de transformar a vida do ser humano, cujos professores-atores não só acompanham as mudanças no mundo, mas também avançam em sintonia com as inevitáveis novidades impostas pela modernidade.

 
“As reformas atuais confrontam os professores com dois desafios de envergadura: reiventar sua escola enquanto local de trabalho e reinventar a si próprios enquanto pessoas e membros de uma profissão. A maioria deles será obrigada a viver agora em condições de trabalho e em contextos profissionais totalmente novos, bem como a assumir desafios intelectuais e emocionais muito diversos daqueles que caracterizavam o contexto escolar no qual aprenderam seu ofício” (THURLER, Monica Gather, in: PERRENOUD, Philippe. As competências para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002 – p.89).

Ser professor é ser o maestro que conduz todo o processo nos bastidores até a apresentação do grande concerto, mas são os músicos da orquestra que fazem o espetáculo acontecer; é por meio do harmonioso som produzido pelos instrumentos que o público vibra, chora, enfim, emociona-se. Ao final, todos, maestro e músicos recebem os merecidos aplausos. Diferente daquela figura isolada e carrancuda de anos anteriores, deve o professor de hoje ser o grande maestro que conduz seus alunos à transformação de suas próprias vidas, a serem agentes construtores do conhecimento. Ser professor é suscitar no aluno o mágico desejo pelo aprender, fazê-lo ter sede pela pesquisa para aquisição de novos conhecimentos, instigá-lo a assumir uma postura autônoma diante dos desafios da vida e provocá-lo a sentir necessidade pelo alcance de resultados cada vez melhores.

“Num contexto de mundo inacabado e em constante mudança, nós não temos nenhuma aula a ‘dar’, mas a construir, junto com o aluno. O aluno precisa ser o personagem principal dessa novela chamada aprendizagem. Já não há mais sentido continuarmos a escrever, dirigir e atuar unilateralmente, em que o personagem principal fica sentado no sofá, estático, passivo, assistindo, na maioria das vezes, a cenas que ele não entende” (SANTOS, Júlio César Furtado dos. Aprendizagem signifiativa: modalidades de aprendizagem e o papel do professor. Porto Alegre: Mediação, 2008 – p.64).

Ser professor é não apenas ter nos conteúdos teóricos e sistematizados de sua disciplina a única fonte de trabalho. Não é "entregar a encomenda embrulhada" e registrada nos livros didáticos a seus alunos e achar que já é o suficiente. Não, não! Tudo isso é pouco demais diante de meninos e meninas que "vivem uma vida" em constante dinamismo, em alta velocidade. Criar ações metodológicas voltadas à priorização da realidade do aluno, sempre com base na contextualização dos conteúdos é o primeiro passo; ou seja, é transportar o aluno para a sala de aula e dar sentido à existência da escola!

Muito mais do que estar em sala de aula após um exaustivo período de estudos para a aquisição do diploma, ou após anos de experiência docente, deve o professor reinventar-se, transforma-se ou, em sentido mais profundo, reformar-se! É necessário acompanhar as transformações tecnológicas e a evolução do pensamento humano, aliar-se a elas e usá-las como ferramentas facilitadoras do processo ensino-aprendizagem. Em muitos casos "(re)suscitar-se" mesmo! Se isso não acontecer na vida do professor de hoje, será ele mais um profissional da educação a decretar precocemente o término de uma jornada.

“O professor tem de ser capaz de reaprender permanentemente, não apenas as técnicas de programação visual e de informática, mas também o conteúdo de suas matérias. Porque o pensamento evolui muito rapidamente e se espalha mais rapidamente ainda… Se demorar a aprender, seus alunos aprenderão antes dele, seja pela televisão ou pela navegação da internet” (BUARQUE, Cristovam, in: Reescrevendo a educação. Org.Emerson Santos. São Paulo: Ática/Scipione, 2006 – p.45).

 Sem contar que a todas as atividades desenvolvidas em sala de aula também devem ter como foco a valorização da vida, a (re)suscitação dos valores éticos e morais perdidos pela fragmentação da família, a base estruturadora de uma sociedade.

Ser professor é mesmo desafiador, mas não é uma missão impossível! Basta destruir obstáculos e usar as pedras derribadas como trampolins à (re)formulação de novas estratégias de trabalho, com vistas a uma formação significativa, transformadora da realidade do ser humano. É preciso, portanto, proatividade, vontade de transformar, reinventar a história de vida daqueles que depositam na educação todas as suas esperanças.
Eduardo Freires, 01 de agosto de 2010.